Arte Postal & História

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Foi no ano de 1989. Eu entrava para o Tiro de Guerra, trabalhava pela primeira vez dentro de algo que estava dentro do que eu queria para mim, ou próximo, e conhecia um camarada que iria mudar minha forma de ver as coisas. Ou pelo menos me mostraria que nosso barco, aquele da outra história, pode ter vários rumos, seguir ziguezagueando, deixar-se ao sabor das ondas.
Zhô Bertholini era um cara enfiado no fotolito da agência. Cabeludo, barbudo, um eterno cigarro e uma enigmática maleta à tiracolo. Ia sem pressa, porque nunca estava atrasado; sempre em cima do momento. Eu, nos meus 19 anos de fuzarca e busca, vi ali um cara que “sacava” das coisas, como diria ele em seu vocabulário “setentão”.
Nas longas viagens do tróleibus ao fim do expediente, entre a estação Ferrazópolis de São Bernardo e o centro de Santo André, eu ia sendo generosamente coberto de histórias, conhecimento e sabedoria, dados por um cara que parecia ver e aprender com qualquer coisa, de uma pedra no chão à uma gota de chuva. Na sua maleta, livros, revistas, rascunhos, idéias que se formavam aos poucos, gota a gota.
Eu sempre gostei de ler, mas era um boi faminto, provando apenas da grama verde. Zhô me mostrou que existem gramas de todas as cores, além flores, cogumelos e insetos, além de mostrar que a arte pode estar em todos os suportes possíveis.

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Uma destas descobertas foi a Arte Postal, onde ele navegava há anos e conhecia capitães de todo mundo; e de onde surgiu uma “curtição” que resiste a estes tempos de mensagens eletrônicas e blogs. Criar um pequeno quadro, uma mensagem, um pensamento, despedir-se dele em uma caixa de metal, saber que sua viagem o levará a inúmeras mãos e olhos, até um destino, onde a pessoa certa o verá, e apenas ela terá as peças que faltam para tornar tudo aquilo inteligível.
Uma pequena parte deste rico mundo, atemporal e sem fronteiras, está exposta a quem quiser conhecer, ler e ver. Zhô, que desde que eu o conheço, há 18 anos, nunca parou de ter idéias e de carregá-las vivas consigo, abriu este baú na Casa do Olhar, em Santo André, São Paulo.
Vale a pena, vale o pássaro. Estique seu olhar até este local, por sí só uma bela obra de arte, e passeie por anos de história, de papel, tinta e idéias.

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Arte Postal – A Poética da Correspondência
Até 29 de setembro
Apresentação de obras do acervo da Casa do Olhar que participaram de mostras internacionais e da coleção particular do curador, Zhô Bertholini, propondo reflexão sobre a correspondência artística diante da globalização e das novas mídias contemporâneas.
Casa do Olhar – Rua Campos Sales, 414
Centro, Santo André – SP – Tel.: 11 4992-7730

Sobre Perkins

Brasileiro, Santoandreense, ilustrador. Curto quadrinhos, cinema, livros, internet e fotos. E um espaço onde colocar o que ficava na gaveta.
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5 respostas a Arte Postal & História

  1. Erica Brasil disse:

    Eu nunca tinha visto este tipo de trabalho mas eu adorei.

  2. Pharme304 disse:

    Hello! gbdfged interesting gbdfged site!

  3. Mas que ótima qualidade achei nos posts muito bem escritos desse blog. Enfim achei o que carecia saber sobre isso de uma forma simples e exata. Já guardei nos favoritos seu blog e irei acompanhá-lo daqui em diante.

  4. Marilza Dutra das Mercês disse:

    Estou realizando um projeto de arte no COLTEC/UFMG, com alunos da primeira série, do Ensino Médio.
    A produção artística será sobre Arte Postal. O tema trabalhado é a sensibilização do olhar, sob a Análise do filme “O Fabuloso Mundo de Amélie Poulain”.
    A minha apreciação foi muito significante. Poderiam compartilhar mais conhecimentos, me enviando imagens, catálogos, artigos e quem sabe, entrar em contato?
    Atenciosamente,
    Marilza

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